Resgate de submarino argentino seria uma missão quase impossível

Governo argentino diz que não tecnologia nem dinheiro — estima-se que a operação custaria US$ 4 bilhões — para tirar submarino do fundo do mar

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Familiares dos 44 tripulantes do ARA San Juan querem o resgate do submarino
Familiares dos 44 tripulantes do ARA San Juan querem o resgate do submarino Marina Devos / Reuters / 18.11.2018

Depois de confirmar a localização do submarino ARA San Juan no último sábado (17), o governo argentino agora aguarda a decisão da juíza responsável pelo caso para saber se terá de tentar retirar a embarcação do fundo do mar.

Marta Yañez, juíza federal da cidade de Caleta Olívia, próxima a Comodoro Rivadavia, que foi a sede dos esforços de busca pelo submarino, afirmou à imprensa que, por enquanto, não deve pedir que o ARA San Juan e seus 44 tripulantes sejam trazidos de volta à superfície.

Em um primeiro momento, parece uma missão quase impossível. O ministro da Defesa, Óscar Aguad, já disse que o país não tem a tecnologia nem os recursos necessários para fazer esse resgate. “É um disparate”, comentou ele.

Entraves financeiros e tecnológicos

Para o engenheiro Hélio Morishita, professor da Engenharia Naval da Poli-USP, a operação pode até ser feita com sucesso, mas seria muito difícil, tanto em termos técnicos quanto financeiros.

“Em princípio, seria tecnicamente viável, mas é muito complicado. O submarino está em uma região muito profunda, você precisa descer mais perto dele, achar um ponto de sustentação e trazer para cima. Ninguém sabe como ele está por dentro”, afirma.

A pressão a 907 metros de profundidade, onde está o San Juan, é 100 vezes mais forte do que no nível do mar, explica o professor. O submarino também está amassado e sem nenhuma reserva interna de ar, que poderia ajudá-lo a flutuar.

“Nunca vi uma operação nessa escala. É difícil chegar onde está o submarino. Prender um gancho nele e puxar seria arriscado. Colocar flutuadores por baixo dele e enchê-los também é muito difícil”, diz.

Estimativa bilionária

A estimativa que está sendo utilizada, de que a operação poderia custar algo em torno de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 15 bilhões), vem do único resgate semelhante conhecido, que aconteceu durante a Guerra Fria.

Os EUA gastaram cerca de US$ 800 milhões entre 1968 e 1974, em uma operação secreta para recuperar o K-129, um submarino balístico da União Soviética que afundou com 98 tripulantes no Oceano Pacífico, a caminho do Havaí. Corrigido para os valores de hoje, o resgate ficaria em quase US$ 4 bilhões.

Na ocasião, a embarcação soviética foi localizada pelos norte-americanos em uma profundidade bem maior que a do ARA San Juan: cerca de 5 mil metros. O relevo do fundo do oceano, no entanto, era plano, enquanto o submarino argentino está em um local cheio de escarpas e cânions, o que dificulta ainda mais o trabalho.

Navio científico disfarçado

Os EUA usaram um navio científico do milionário Howard Hughes nessa missão. A embarcação ganhou um fundo falso, que se abria para fazer descer uma imensa garra que traria o submarino rumo à superfície, puxada em um guindaste.

Quando faltavam cerca de 1.500 metros para completar a missão, houve um desastre. O submarino se partiu em dois e a garra chegou à superfície trazendo apenas um pedaço de cerca de 12 metros da embarcação.

A CIA, que pretendia aprender segredos soviéticos com o conteúdo do submarino, precisou se contentar com o resgate de dois torpedos contendo ogivas nucleares, alguns documentos e os corpos de seis marinheiros, que foram sepultados no mar com honras militares, pelos norte-americanos.

Outros submarinos e navios que afundaram jamais foram resgatados, devido aos altíssimos custos para retirá-los do mar. Eles seguem até hoje nos oceanos, em “patrulha eterna”. Um bom exemplo disso é o Titanic, que está a 3,8 mil metros de profundidade.

Parentes divididos

Na Argentina, no entanto, os próprios parentes dos 44 tripulantes do ARA San Juan estão divididos. Um grupo pediu formalmente ao governo do presidente Maurício Macri, que faça o resgate do submarino.

Outros, como o capitão da reserva Jorge Bergallo, que além de pai de uma das vítimas, o tenente-de-corveta Ignacio Bergallo, chegou a ser comandante do próprio ARA San Juan, preferem que o submarino continue no fundo do oceano.

“Pessoalmente, preferia não ter de passar pelo trauma de reconhecer corpos que estão submergidos há mais de um ano. Não sei qual pode ser a necessidade de fazer os familiares passarem por isso”, disse Bergallo, que também é um dos membros da comissão que investiga o acidente, em entrevista ao canal Todo Notícias.

Segundo o ex-militar, trazer o submarino para a superfície pode não ajudar nem mesmo a investigação. “O comandante disse que havia entrado água nas baterias pelos tubos de ventilação e que isso causou um incêndio. Recuperar o submarino não vai nos trazer nada de novo porque já sabemos que ali entrou água. Depois disso não temos como saber nada”, explicou.

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